“Tempo é dinheiro.” Você já deve ter ouvido inúmera vezes esta frase, que hoje é reproduzida como um mantra em nossa sociedade, mas você já parou para pensar sobre os efeitos dela em nossa sociedade? Quais os impactos diretos e indiretos dela? Tempo, realmente, é dinheiro?

Sempre venho de bicicleta ao trabalho; é um trajeto curto e seguro. Pedalo pouco mais de 3 (três) kms, sendo a grande parte deles em ciclovias. Porém hoje sofri dois quase-atropelamentos que me fizeram refletir sobre os “porquês” da nossa sociedade. Ambos quase-atropelamentos foram fruto de uma dissintonia entre dois motoristas. O primeiro me deu passagem, pisando no freio. O segundo, sempre muito apressado (“tempo é dinheiro”), vendo que o primeiro iria parar, acelerou o carro e passou muito perto de mim, em velocidade altíssima (ele não só não parou, como aumentou meu risco quando acelerou mais ainda o carro).

Curiosamente, os dois que pararam (uma Mercedes e uma Fiorino) tinham motoristas que não estavam nesse ritmo frenético exposto pelo mantra moderno. O da Fiorino era um jovem que fazia entregas e não ganharia mais reduzindo 30 segundos da sua viagem. O segundo, dono de uma bela Mercedes, era um senhor sorridente, que já tinha trabalhado por longos anos e dirigia seu carro tranquilamente por São Paulo. Já os dois que quase me atropelaram era jovens (abaixo dos seus quarenta anos), bem vestidos, com cara de estressados, sempre com o telefone na mão (vai que chega um e-mail ou um “call” importante).

Continuei minha pedalada com a cabeça a milhão. Porque as pessoas tem tanta pressa? Olhava para os lados, os motoboys correndo como loucos, colocando as vidas deles em risco para conseguirem que a empresa pague mais (infelizmente, a maioria das empresas de motoboy paga por ponto, e não por mês). Assim sendo, eles correm o risco de se matar no trânsito para ganharem alguns trocados a mais. Furar farol e conversões proibidas são apenas algumas artimanhas para otimizar o tempo e, consequentemente, ganhar mais dinheiro. E a maioria de nós, direta ou indiretamente, usa esses serviços diariamente. Aquela pizza que você comeu no domingo, aquele documento que você mandou entregar na quarta-feira e o motoboy que morreu na sexta tem uma coisa em comum: nosso sistema de transporte.

Quantos acidentes de carro, quantos atropelamentos, quanto mal estar e quantos problemas de saúde não são causados por essa nossa pressa? Veio em minha mente as estradas de terra do interior de São Paulo: sem iluminação, com inúmeras bifurcações e cruzamentos, pedestres, crianças, cavalos, asnos (ops… isso é uma exclusividade do trânsito da capital), dentre outros. Mesmo com esse cenário catastrófico, temos menos acidentes no interior do que em São Paulo… mais pessoas tem menos pressa, param e olham para ver se podem atravessar, dirigem com cuidado, olham por onde andam, não usam Waze ou e-mail no celular. A tão famosa mensagem no Whatsapp pode esperar a próxima pausa para ser respondida.

O dinheiro não deixa que tenhamos tempo. Porque ficarmos ociosos se poderíamos estar gerando renda? Porque trabalhar só das 09 às 18 com uma hora de almoço? Para que aproveitaremos os finais de semana com nossa família se podemos render mais? Cristo já previa isso: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.” (Mt 6,24).

O que Cristo quer dizer não é para que odiemos a riqueza e nos livremos de todos os bens materiais, mas que saibamos dosar a importância dela em nossas vidas e não sejamos guiados pelo dinheiro sem que tenhamos tempo para viver as nossas vidas como devem ser vividas.

LMF